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13/03/2009 - Na cena independente nacional e alternativa do rock modas vem e vão e uma banda fica. O Dance of Days, homenageado na última premiação do Zona Punk Best of 2008, atravessou gerações e agrega uma legião de fãs que acompanha a banda de maneira messiânica e tão intensa que destaca os próprios fãs da banda dos fãs de outras bandas do circuito. Conheço o Nenê faz anos e resolvi fazer uma entrevista diferente, com perguntas mais legais, sem esse lance de falar sobre internet, discos, carreira etc. Nessa nova seção separei cinco tópicos polêmicos (pra não ficar cansativo) e elaborei as perguntas. Acho que todos vão achar bem mais interessante do que tudo o que estão cansados de ler por aí. Com vocês, Dance of Days
 

1 – SOBRE A “EMO”ÇÃO NAS LETRAS

Wladimyr Cruz - As letras do Dance of Days são bem mais profundas que a grande maioria das bandas do mesmo circuito. E, ainda assim, contra a corrente, vocês tem uma legião de fãs fiel e fanática. Vocês acham que essa resposta vem do estilo de música que fazem? Melhor, como vocês definiriam o estilo da música do Dance of Days? Vocês se consideram ou não uma banda “emo” afinal?

Nenê Altro - Bom, eu acho que isso vem de escola. Escola musical e de identificação artística, eu digo. Música para mim é uma forma de expressão e eu escrevo tudo o que eu sinto, com o coração e não com um dicionário de rimas. Expressar sentimentos não é simplesmente escrever uma letra bonita para uma menina, por exemplo. Sentimento é amor sim, mas é também ódio, raiva, descontentamento, angústia, alegria, esperança. E o Dance of Days é isso, verdade nos sentimentos. Aprendi isso com Renato Russo, Morrisey, Ian Curtis... Minha banda punk nacional preferida sempre foi o Cólera. Não conseguiria fazer uma música que não transmitisse nada. Não foi isso que aprendi nem com isso que me identifiquei quando me apaixonei por compor. A música tem o poder de transformação, de inspirar ações e atitudes, de questionar, de trazer conforto. E pra mim é uma válvula de escape. Alguns escrevem poemas, outros pintam quadros, escrevem peças... eu faço música. Com paixão, com verdade, com transparência. Acho que por isso tanta gente se identifica... Quanto ao emo, somos uma banda de 1996. O emo ao que somos relacionados é o do Revolution Summer de Washington DC, do Embrace, Fugazi, Rites of Spring... que influenciaram a gente a montar a banda. Depois a garotada da onda emo do século XXI adotou a gente. Mas a gente não ligou não, a garotada curte um som, é gente fina, não é violenta. Não somos emo, mas sempre dissemos que nosso som é para todos. Quem quer curtir curte e será sempre bem vindo.

2 – SOBRE AS BANDAS NOVAS

Wladimyr Cruz - Muitas bandas novas tem surgido e demonstram uma ânsia desesperada pela fama. Vocês acham as bandas novas muito competitivas?

Nenê Altro – Eu acho que cada um tem seu jeito de se envolver com a música. Muitos encaram a música como algo estritamente profissional e são realmente bons músicos. E muitos são como nós, que não somos músicos, mas somos apaixonados pelo que fazemos. Crescemos na veia Ramones, “Do It Yourself”... Acho que todos tem seu espaço e tem fãs de acordo com sua proposta artística. O que eu acho hoje em dia é que sim, muitas bandas tem demonstrado pouca criatividade, sempre soam parecidas e são extremamente competitivas, até na hora dos shows (o que a gente via muito só no meio do metal melódico no passado e até hoje eu acho esquisito). E outra coisa é que muitas bandas são absurdamente descartáveis, tem seu momento de fama, fazem boas músicas, mas caem nas graças do grande público da mesma maneira que caem no esquecimento. Não sei... uma coisa que eu sempre quis com o Dance of Days foi deixar marcas. Tipo fazer uma música tipo “Tempo Perdido” do Legião ou “Funcionários” do Cólera. Algo que a pessoa fique velha mas olhe para trás e faça parte da história dela. Se uma pessoa gostasse de Dance of Days e depois isso não significasse nada pra ela, mesmo ela mudando de estilo de vida, acho que aí sim eu ficaria decepcionado. Mas acho que quem gosta da gente gosta com paixão. É o que vejo quando canto olhando nos olhos das pessoas.

3 – SOBRE HOMOSSEXUALISMO

Wladimyr Cruz - Recentemente você fez uma resenha na Love Rock explicando a música “Se Essas Paredes Falassem”, contando que é uma música contra preconceitos a homossexuais. Você já se relacionou com homens? Acho que ninguém nunca teve coragem de te perguntar isso de maneira tão direta, e sempre me perguntam se sei disso.

Nenê Altro – Não, eu não sou gay. Sou simpatizante, gosto das baladas, me sinto seguro no meio. E adoro as gírias hahahaha Só me envolvo com garotas bissexuais, que, de certa forma, também são gays (queiram as gays “puristas” ou não). Não como uma regra, mas são elas que me atraem mesmo. Sempre que posso vou a parada gay. Acho muito legal mostrar pra essa sociedade católica, falocrata e castradora que há muito tempo os homossexuais deixaram de ser uma minoria. Não gosto quando fazem piadas que depreciam os gays, quando ridicularizam... Acho que cada um na sua e cada um com seu espaço. Se a gente tem que engolir grupos de extrema direita religiosa contra a legalização do aborto, por direito democrático, por exemplo, porque a sociedade não pode dar o mesmo direito democrático aos gays? Acho a homofobia um sentimento amargo, feio e mesquinho.

4 – SOBRE AS DROGAS

Wladimyr Cruz - A sua imagem Nenê, nos últimos anos, foi totalmente relacionada a de um cara junkie, inconseqüente, afundado no álcool e nas drogas. Ultimamente em seu fotolog (/altronenealtro) você tem dado declarações falando de maneira avessa a tudo isso e tem se apresentado sóbrio nos shows. No que isso afetou e como isso vai afetar a carreira do Dance of Days?

Nenê Altro – Meu envolvimento com drogas sempre foi muito relacionado a depressão. O que, de nenhuma forma foi relacionado a glamour (ou não deveria ser) e sim com dor. “Linda”, que abre o disco mais depressivo que já escrevi em minha vida, fala aberta e diretamente sobre essa relação. Não é algo positivo. Aliás, não ter como ser positivo se a coisa em si é tão pra baixo. E mesmo depressivo e dentro do círculo vicioso eu demonstrei em minha arte a angústia de estar sem direção, de ver meus dias iguais e sem sentido, no mesmo disco, inclusive, em “Selene”. É algo fácil de entrar e extremamente difícil de sair. Não como essas campanhas idiotas do governo, feitas por gente de fora da situação. Você acaba relacionando o uso de drogas com felicidade, com risadas com os amigos, situações engraçadas e acaba se esquecendo de que tinha tudo isso antes de se afundar nelas. É difícil você pegar e dizer, nunca mais vou usar, mas eu posso sim dizer que não me fez e não me faz bem. E que eu quero me livrar cada vez mais disso. Quanto ao Dance of Days foi uma fase difícil, mas em seu pico rendeu o álbum “Lírios Aos Anjos” que foi a minha válvula de escape. Começa com um grito de angústia e termina dizendo que estou indo rumo ao cemitério (“Camposanto”, em italiano) a 300 km por hora. Rendeu também meu primeiro livro, sobre meu período morando nos hotéis do centro e sem rumo na vida... Muita gente gostava do Nenê depressivo e junkie, mas acho que muita gente está gostando também de me ver bem, rindo com os amigos, só bebendo cerveja e mais de bem com a vida. Sair das drogas não é algo fácil mas estou me esforçando muito. E acho que só em ter isso como algo determinante em minha vida já está afetando positivamente a carreira da banda.

5 – SOBRE AS GRANDES GRAVADORAS

Wladimyr Cruz – Nx Zero, Fresno e agora Glória, Fake Number, entre outras assinaram com grandes gravadoras. Bandas que iniciaram suas carreiras abrindo os shows do Dance of Days. O que pensam sobre isso? Tem ressentimentos? Porque as gravadoras não se interessam pelo Dance of Days?

Nenê Altro – Não sei. Talvez exista alguma coisa pessoal, algum motivo que desconhecemos, mas seguimos em frente. Não fizemos a banda com o propósito de correr atrás de uma gravadora e sim de tocar e se divertir. Acima de tudo gostamos da música que fazemos e nos achamos uma banda boa. Acho isso bem importante para a realização de qualquer músico. Pra mim, em especial, fazer música sempre foi mais necessidade de colocar pra fora o que penso e sinto do que qualquer outra coisa. Sempre fui o maior entusiasta, desde que o CPM 22 assinou, para que as bandas aproveitassem as oportunidades e abrissem mais portas para as bandas independentes. Uma vez assisti a um documentário do Ramones, não sei se foi o End of The Century ou o Ramones Raw, mas é uma parte em que o Johnny fala “As gravadoras não nos querem, então o que temos que fazer é envelhecer com dignidade”. Acho que isso foi o que mais me tocou quando penso no assunto. Sempre lembro da cena do Johnny falando. E acho que ele está certo. Vivemos da banda há anos. Não somos ricos, mas vivemos de música NO BRASIL como artistas independentes o que é uma conquista fenomenal. E viveremos por muitos anos, pois temos os pés no chão, gravaremos mais discos, faremos mais shows. E a vida é assim. Sempre analisaremos o que é bom e o que não é bom para a banda, o que pode e o que não pode mudar nossa proposta. E seguiremos assim. O que muita gente não sabe é que somos amigos de todas as bandas que você mencionou. E também de muitas outras bandas no mainstream. E o que achamos mais legal é o respeito que elas tem com a gente. Os donos de gravadoras não gostam do Dance of Days ou talvez não gostem só de mim, vai saber, mas como diria Chico Buarque, as filhas deles gostam hahahaha

 
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