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25/07/2009 - Diretamente da terra do pão-de-queijo, a banda Irônika vem ao longo de seus nove anos de existência consolidando seu nome como um dos pilares do punk rock mineiro. Confira a seguir a entrevista que fizemos com o guitarrista e vocalista Bruno, na qual ele nos conta sobre o novo EP "Casa Caindo", lançamento que marca a nova fase do quarteto belo-horizontino, além de comentários sobre o cena independente mineira, sobre a danosa relação com a gravadora 53HC e muito mais.
 

Crixxx - Bruno, vamos iniciar falando da história do Irônika. Conta como pintou a idéia de montar a banda, formações, etc.

Bruno - Cara, pintou da vontade de tocar punk rock em BH, não pelo som tosco, não pelo hardcore, não pelo movimento punk, mas sim pelo rock 'n’ roll. Quando o Irônika surgiu em 2000 não havia sequer uma bandinha cover de The Clash / Ramones ou mesmo uma banda ska punk por aqui que estivesse em plena atividade. O metal, os "antimúsica" e o pop rock sempre falaram mais alto em BH, então pensei, se não tem uma banda na cidade que eu goste o jeito vai ser montar a minha. E muita gente passou na banda que já começou como quarteto, minha irmã chegou a ser baterista na fase ska punk, pouco antes de mudarmos o som em 2002. Alguns colegas também passaram e deram sua contribuição para a banda continuar, uma, duas, três, quase que umas 10 pessoas... (risos). A fase 2002-2008 com Cau, Juarez, eu e Tiago foi a mais estável, fizemos muita coisa juntos, mas esta também já é passado. Todos eles ajudaram a manter esse sonho vivo. A formação atual com Skiter, Vasseur e o Tiago de volta é o sangue novo pra continuar, isso é o que importa.

Crixxx - Uma das primeiras demos em CD que recebi de banda independente na vida para resenhar foi a primeira demo CD de vocês, "F... A Família Brasileira Tradicional", e na época fiquei impressionado com o cuidado e qualidade do material que possuía até faixa multimídia. Fale a respeito desse trampo, qual foi a repercussão e a importância dele na carreira de vocês.

Bruno - Gravamos esta demo em um domingo de 2003 no Porão, na época era um estúdio caseiro de BH que, com pouco recurso, fechou um trampo bem legal. Os sing alongs, a energia das músicas, as guitarras e as colagens foram influências das bandas que já ouvíamos na época como Oxymoron, US Bombs e Rancid. A primeira música virou um vídeo clipe. Foi o material que mostrou a cara da banda para o público na internet e nos shows, é o nosso registro histórico. Sorte ou não, foi algo tão pequeno e tão verdadeiro que nos abriu várias portas. Porra, foram vários shows por causa deste material, tocamos no Hangar 110 e cruzamos o nordeste para tocar no Piauí por causa desta demo. Me orgulho disto, tenho um carinho especial com este registro e ouço-a até hoje.

Crixxx - Agora em 2009 a banda está lançando seu novo trabalho, o EP "Casa Caindo", o primeiro após seis anos, sucessor justamente da demo citada anteriormente. Dá uma comentada sobre esse EP e seu respectivo processo de produção.

Bruno - O EP foi um sinal de vida da banda em 2009, uma jogada independente que deu certo após anos sem material. Foi uma produção feita no início do ano no Elétrico Studio em BH. Eu gravei umas guitarras, Cau gravou outras, Arthur tirou de letra as baterias. As três músicas são “Heróis do Bar” que é um puta rock ‘n’ roll com sing alongs – autoria do Arthur (baterista anterior), “Casa Caindo” que é um som frenético com vocais alternados no típico estilo “hip-hop tag team” e ainda “Diz Aê!”, som de 2002 que teve uma turbinada nos arranjos. O que fez total diferença e fez deste EP um material extraordinário para nós foram os vocais, especialmente os sing alongs gravados com os amigos - que saíram na medida certa, o clima da gravação, a assistência foda do Marcelo Guerra, os arranjos e a qualidade da gravação. O design eu fechei com meu primo Daniel que é designer de marcas de skate como Yuzix, Costner e Salm: tudo que está ali naquele encarte sejam as fotos, as letras, as imagens e a carta escrita à mão representaram bem a fase que a banda atravessava no início de 2009. "Casa Caindo EP" teve uma boa aceitação principalmente para o público que esperava músicas inéditas da banda, seja oi! / punk, seja rocker, seja hard core. A notícia do split já estava no ar e não deu em nada, o EP ajudou a atravessar essa barra. Isso me aliviou bastante já que quando gravamos esse material no início deste ano o clima estava ruim, metade da banda já saiu ou estava pra sair. Não havia muito a ser feito, gravamos o que deu pra gravar, correu tudo bem e a banda está na ativa.

Crixxx - Quais são os recados que a banda normalmente pretende passar com suas músicas?

Bruno - Nossas músicas são depoimentos, visões de mundo e coisas pessoais. Às vezes cantamos algo triste, às vezes feliz e, quem sabe, polêmico. Uns se identificaram com nossas letras peculiares, outros não. O Irônika é de origem humilde, a banda se desenrolou nos bairros suburbanos e violentos de BH, cantamos sobre coisas que acontecem aqui, vi muitos conhecidos irem embora por causa da criminalidade, vi muitos meninos roubando carro ou trocando tiros na rua, isto me afetou e faço músicas sobre isto. Também há letras que dizem coisas do que gostamos, boemia, vícios, garotas, juventude, coisas que estão próximas da gente. Não queremos ser uma banda consciente ou panfletária e muito menos dizer às pessoas o que fazer, aqui já existem muitas bandas assim.

Crixxx - No release da banda consta que a banda já fez mais de 70 shows. De todos eles qual o melhor e o pior show e o porquê.

Bruno - O melhor foi o último em novembro de 2008 pelo 53HC Fest, tudo funcionou aqui, a presença de palco, o som, o público, as músicas, de fato foi memorável. Quanto ao pior show foi uma pergunta difícil cara, já foi tanta discórdia e shows ruins que minha memória falha... Mas posso citar um que foi uma merda: um show de 2001 que fizemos em uma DA universitário em BH, era a fase das tretas ainda. Muita gente que não gostava de mim estava nesse show, foi tenso, brigar lá foi inevitável, me jogaram no chão, minha caixa de guitarra foi pra rua e quase quebraram ela toda.

Crixxx - São nove anos da banda no underground. Já que você é o único membro que esteve ao longo desses nove anos, diga-nos qual foi o momento mais marcante pelo qual o Irônika já passou.

Bruno - Acho que o momento mais emocionante foi o dia do show com o U.S. Bombs no Zona Punk Tour 2006 em BH, foi um dia foda, fizemos um show foda. Também foi um dia corrido e com fortes emoções do início ao fim, muita coisa boa e ruim aconteceu nesse show. Meu bemzinho, na época, catou o Duane Peters na frente de todo mundo e me deixou transtornado, eu tomei um prejuízo da produção local no dia também, muita gente se trombou nesse show, uns brigaram, outros dançaram e outros choraram... estavam todos lá. Passar um dia com seus heróis é marcante, tomar cerveja com eles e se dar o luxo de ver um show punk rock propriamente dito em sua cidade é de chorar. Haja coração!

Crixxx - Como mantemos contato de longa data, sei que o Irônika passou por um momento bem complicado em sua trajetória, que foi o imbróglio com a gravadora mineira 53HC. Gostaria que você relatasse ao público do ZonaPunk a respeito de tudo que ocorreu e em que pé o caso está.

Bruno - Em 2005 a 53HC tinha um interesse em algumas bandas de BH: Hot Rod Combo, Jet Kids e Irônika. Inclusive na época tocamos em alguns eventos do selo. Havia um interesse também em lançar músicas da banda, nesse mesmo ano fomos para estúdio junto com o Jet Kids, Bart e Davi Baeta para fazer uma pré-produção. Registramos umas 13/15 músicas que ficaram engavetadas. Algumas músicas do Irônika foram parar posteriormente no myspace com a promessa e comunicado no fotolog oficial da 53HC de que seriam lançadas a médio prazo.
Em 2006 nós e os caras do Jet Kids voltamos para estúdio para fechar um full length com produção do Davi Baeta. Desta vez o clima não estava bom e disseram que não deu certo - vocais ruins, bateria ruim, arranjos ruins e a minha guitarra também estava ruim enquanto o Jet Kids lamentavelmente acabou devido aos desgastes deste dia. Desde então tive a sensação de que esse esquema não se encaixava com o perfil do Irônika, ou seja, entramos em um esquema de produção e gravação tão quadrado que não funcionaria para bandas de punk rock. O Davi Baeta é muito competente, mas somente com as bandas de metal e crossover - Irônika não. Disseram que as músicas tinham que sair perfeitas e a banda teria que dar tudo de si gravando tudo ao vivo e na raça. Isso sugou nossas energias e dividiu a banda na época. Foi uma produção duvidosa para mim e novamente engavetaram as músicas.
Daí a 53HC resolveu pegar as músicas da pré-produção de 2005 e compilar um Split com o Atitude de São Paulo e tudo foi concluído: masterização, parte gráfica, trâmites, etc. E então se passaram quatro anos anunciando o lançamento de um split, nada foi lançado. Fomos convidados a uma conversa com o Bart no final de 2008 pra dar um fim a esta falta de compromisso, mas tudo acabou em agressões verbais contra a banda.
No final das contas, das três bandas de BH o Irônika foi a única que sobreviveu. Cau e Juarez – os músicos do Irônika que a 53HC reconhecia saíram da banda e quase montaram outra com o apoio do selo – na época até apelidaram carinhosamente de “Irônika 2”... (risos). Enquanto isso, a 53HC simplesmente nos isolou do compromisso de lançar esse material. O split, embora pronto e pago (nada foi de graça), foi uma grande pilantragem que não esperamos mais. A capa do split você pode ver no site oficial da 53HC (“Split Series Irônika / Atitude”) mas se você clicar na capa o link vai para uma página do Calibre 12... Enfim Crixxx, é um final um tanto “feliz”: esqueça este split e tire suas conclusões.

Crixxx - Faça um apanhado de como anda o cenário das bandas independentes e o circuito de shows de BH e MG.

Bruno - Há festivais pipocando em todo o estado, coletivos de música independente também não param de surgir e se articular em BH e no interior, a galera realmente resolveu acordar mesmo, nunca se houve tantas opções legais e diferentes por aqui, sejam bandas, sound systems ou festivais. Em BH há boas bandas que ainda vão dar o que falar como Silicones, Inflamável e Rocketwist. As casas de shows em BH ainda são as mesmas, mas tanto a cidade como o estado estão com uma enxurrada de coisas bem legais na agenda até o final do ano. Só para você ter uma idéia dos nomes de festivais: em BH tem o Garimpo, BH Indie, o Campeonato de Surf, o 53HC Fest, vem aí o Arena Livre e antes também havia o BH Rumble. No interior de minas neste ano tem o Escambo (Sabará), D’Art (Luminárias), Jambolada (Uberlândia), Marreco (Patos de Minas), Pequi Rock (Montes Claros) e Megalozebu (Uberaba).

Crixxx - E agora após esse EP lançado, vem um full length por aí? Conta quais são os próximos passos e projetos da banda.

Bruno - O Irônika está começando de novo com esta formação, as coisas vão se encaixar no lugar de novo, talvez demore um pouco. A banda está mais simples, porém mais rock. Skiter e Vasseur apesar de acompanharem a banda por muito tempo ainda estão entrando na rotina do Irônika. Eu espero que, quando tudo estiver no lugar, vamos gravando mais músicas, juntamos o dinheiro e com um apoio ou não quem sabe sai o full lenght – que é um grande desejo, mas prefiro não estipular um prazo. No mais, pretendemos fazer muitos shows ainda este ano, não há nada que nos impeça porque o Irônika sempre funcionou estimulado pelos shows.

Crixxx - Encerramos aqui a entrevista Bruno. Boa sorte na nova caminhada e aproveite para deixar uma mensagem final do Irônika aos leitores do ZonaPunk.

Bruno - Então amigos, se você tem um sonho vá em frente. Às bandas eu digo: saiba bem quem são seus amigos e mantenham os olhos bem abertos com os idiotas por aí. Eu acredito no que eu faço e por isso estou no punk rock. É a minha vida, é verdadeiro e é o melhor que eu posso fazer. O Irônika promete muitas novidades este ano, estamos animados, músicas novas, nova formação, novas parcerias, novo merch, então é pegar ou largar. O primeiro show do ano é o do dia 25 pela Skunk Party Vol. 2 em BH, a noite promete, se você puder ir vá! Estamos loucos pra cair na estrada também! O nosso EP saiu em CD com 8 faixas, quem quiser mande um e-mail para banda_ironika@hotmail.com. No mais, um forte abraço a todos que estão verdadeiramente no rolê: público, bandas, produtores. Saúde & cerveja de BH!


• Links Relacionados:

- EP "Casa Caindo" (2009): Resenha / Download

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