Estive fora por um tempo, é verdade, mas foi um motivo honesto. Fui para um retiro espiritual indiano andar em cima de elefantes e colocar castiçais na cabeça qual John Lennon em certa data no passado. Mas eu acho que não resolveu nada, uma porque eu não sou o John Lennon e outra porque ninguém merece ficar na índia andando em
cima de elefantes. Só me estressou mais aquele trânsito imenso de elefantes, um com a trompa no rabo do outro.
Mas eu não fiz essa fuga porque gosto de andar em elefantes, eles nem são o melhor meio de transporte. O que eu queria mesmo era descansar os meus ouvidos de tanta merda que tem por aí. Por exemplo, é realmente impressionante que um cara como o Latino faça sucesso, mas o que se pode esperar de um país que faz "música pra
adestrar macaco", como já disse uma vez o cara-que-não-matou-Joana-D’arc Marcelo Nova. Mas há quem goste, então há quem faça.
Latin Lover
A merda na música está em todo lugar. Está aí no seu bolso tocando no seu celular ultra-moderno, ou sobrevoando sua cabeça quando você entra em um ônibus. E a merda está também, (por que não?) no rock ‘n roll. Estou levando em consideração que todos que leêm essa coluna gostem pelo menos um pouquinho de rock e não sejam dançarinos
de axé infiltrados - porque para eles The Clash pode ser uma bela bosta (não estamos discutindo gostos duvidosos), e não me importa se você gosta de punk, metal, CPM 22 ou qualquer coisa que termine com "core", mas um ponto do qual todos que têm um mínimo de inteligência e amor pela mãe podem concordam é que Latino é uma grande porcaria disfarçada com aqueles óculos com nariz e bigode embutidos dançando de um jeito bem brega. Ou seja, é uma merda generalizada. Ele conseguiu mesmo jogar a merda no ventilador, catar os restos e pôr tudo num CD.
Mas ele é apenas um pobre diabo que tenta se segurar na mídia a todo custo, inovando como tantos outros que tentam e não conseguem. Isso porque inovar hoje em dia está cada vez mais difícil. Não há mais o que inventar. Tudo já foi inventado, tudo já foi pensado antes. É como naquele programa de um certo canal a cabo do qual os
participantes tem que inventar algo novo. Sinceramente eu não vi nada de novo lá, uma invenção mais babaca que a outra. Se querem inventar algo novo, inventem um teletransportador, oras.
Agora voltando para o mundo da música... me apresente algo realmente novo que não tenha influência nos anos 80 e não tenha influência em nada mais. E não me venha com Cansei de Ser Sexy. É um som legal? É. Mas eles não têm um som novo, são apenas um Depeche Mode mais feliz e moderno. E eles são bem modernos, mas tudo isso por causa
dessa onda de fotologs, orkut e moda que acabam se distanciando de uma das principais coisas que uma banda tem que ter que é a música.
Depeche Mode? Está mais pra B52's.
O Richard Hell dizia que vivia numa geração vazia, cantando a sua "Blank Generation", mas o que há de mais vazio do que a geração que vivemos hoje? Onde todos temos que chafurdar influências no passado e trazê-las "de volta para o futuro" com nossas máquinas do tempo pessoais e portáteis que ainda vem com um gel redutor de medidas, se você ligar pra comprar agora mesmo, é claro.
Por exemplo, ser retrô é a coisa mais cool que inventaram no mundo. Pega um estilo ultrapassado aqui, faz uma massagem cardíaca acolá e traga-o de volta a vida como se nada tivesse acontecido, bela invenção. É por isso que somos uma geração mais vazia que a do Richard Hell, tão vazia, tão vazia, tão vazia que precisamos copiar a
geração de um cara que já vivia numa geração vazia. Mas isso é o que ele diz porque todos sabemos que sua geração não foi tão vazia assim. Sendo assim o que dirão dos anos 00? Dirão que demos um ctrl c no passado e um ctrl v no presente? Nos revivais dos anos 00 tocarão Smiths e The Cure? A mocinha ficará com o mocinho no final da novela das 8? Só Deus sabe...
"Mate-Me Por Favor"
Mas eu não estou dizendo que ser influenciado hoje em dia é uma coisa ruim. Eu tenho uma banda e sei como é difícil fazer uma música que não se pareça com absolutamente nada. Porque tudo tem influência. O próprio rock ‘n roll nasceu de influências, logo, tudo que você faça terá 90% de chances de se parecer um bocado com alguma
coisa que já existe. Pode ser bem de longe, de costas e no escuro, mas parece. E há uma variedade incrível de bandas excelentes hoje em dia, cada uma com sua peculiaridade mas todas com um pé em algum outro lugar que não as faz ser tão originais assim. Logo o único jeito de ser original mesmo é voltando no passado e aparecendo primeiro.
Posso ter sido um pouco niilista demais, mas isso só me ocorreu porque eu percebi que metade das bandas que eu mais gosto sequer têm todos os seus integrantes vivos hoje em dia. Mas eu também não acho que o rock ‘n roll morreu como vêm anunciando alguns profetas de botequim, sequer acho que ele vá morrer algum dia. Pelo menos não
enquanto existir a Inglaterra da qual insiste em lançar salvadores do rock todos os dias com seu hype maldito. Como se o rock fosse uma donzela loira em apuros. God save the rock ‘n roll! |