Maquinária Festival: Faith No More, Jane's Addiction, Deftones, Sepultura e bandas 07/11/2009 - Chácara Do Jóquei - São Paulo/SP
"Porra, Caralho". A resenha do primeiro dia do Maquinária Festival poderia ser resumida assim, mas as convenções jornalisticas me impedem de resumir tanto.
Devido a um transito infernal, consegui chegar na Chacara do Jóquei somente durante o show do Sepultura, tendo perdido shows do Stevens, Tico E O Rebu e Nação Zumbi.
Estrutura gigantesca, bem arrumada, tanto para a área VIP como pro público 'normal', e um som impecavel, estas foram as primeiras impressões, ainda mais quando o que saia das caixas de som era o clássico "Territory". O Sepultura não é mais o mesmo, com certeza. Olhar a banda no palco e se lembrar dos shows da época do "Arise" por exemplo, faz com que pareça ser duas bandas totalmente distintas, mas isso não tira o valor dos clássicos executados no show, e até as músicas novas, do poderoso "A-Lex". A apresentação terminou com a sempre apoteótica e emblemática "Roots Bloody Roots"
O palco MySpace, bem mais humilde e alocado do outro lado da estrutura, recebeu na sequência a banda Sayowa, conjunto de peso que, seguindo o pique do Sepultura, faz uso de tambores e surdos em seu som, mesclando brasilidades e rock pauleira. O palco não ajudava muito, o sol contra os olhos também, mas o grupo mandou seu recado.
Ainda com o sol dando o ar de sua graça, o cultuado Deftones subiu ao palco principal. Chino Moreno e seus asseclas (com o baixista reserva, ex-Quicksand), colocou boa parte da galera pra cantar com seus hits messiânicos. Não eram poucos que choravam e gritavam junto com a banda, explodindo logo na terceira música, o hit "My Own Summer (Shove it)". Não faltaram ainda outras fan-favourites, como "Feiticeira", "Knife Party", "Around the Fur", e claro, fechando com o clássico "7-words". Até mencionei na nossa cobertura live via twitter, em alguns berros de Chino, a sala de imprensa que ficava ao lado do palco principal, literalmente tremia.
Com o cair da noite, o local foi enchendo cada vez mais, e é impressionante ver como o Faith No More (principalmente) ainda tem público fiel por essas bandas. O clima de sol e as atrações de peso, aliados claro a estrutura, fizeram muitos experienciar algo próximo do que é um Reading Festival, ou festival europeu de mesmo nível.
No palco MySpace era a vez do Maldita que, tal qual o Arcade Fire fazia, começou seu show usando a menina pastora como vinheta. O performático conjunto, que me remete sempre ao Marilyn Manson & Spooky Kids, fez seu show baseado em seu disco e várias referências pop/teatrais. O público mais jovem aprovou.
De volta ao palco principal, o clima também era teatral e performático, mas totalmente diferente. Lá no comecinho dos anos 90, quando conheci o Jane's Addiction jamais imaginei que veria a banda ao vivo, e finalmente, com quase 20 anos de atraso, eles estavam ali. O gênio Perry Farrell, com seu visual/postura à la Ney Matogrosso, encantando e cantando clássicos que revolucionaram o que conhecemos como 'rock alternativo', entre eles "Ain't No Right", "The Mountain Song" e claro "Been Caught Stealing", seu maior hit. Mas Farrel não estava só no palco, a banda estava com sua formação original, e com ela, o guitar-hero Dave Navarro, um verdadeiro show a parte, e só ele poderia emocionar tanto tocando os primeiros acordes de "Jane Says", ou causar adrenalina sem igual ao começar a doentia "Stop", melhor momento do show. Finalizando, Farrell resolveu homenagear o brasil com uma espécie de samba no palco, com tambores e "passistas". Esquisito, mas sincero. Agora só falta ele realmente trazer o Lollapalooza pra cá.
Quebrando um pouco o espirito alt-90s, encerrando no palco MySpace, tivemos o Brothers Of Brazil, banda dos irmãos Suplicy. Poucos foram os que testemunharam o show, já que todo mundo procurava um bom lugar para ver a atração principal da noite, mas de qualquer forma, a banda fez um belo show, divertido, mas que sem dúvida funciona melhor em um espaço mais intimista.
E era chegada a hora, ele já estava entre nós. Para muitos o primeiro encontro com o ser, para outros, como eu, um agradavél re-encontro com alguém que fez/faz parte do dia-a-dia musical. Tal qual nos shows europeus, Roddy Bottum assume o teclado e começa os acordes de "Reunited", cover da dupla Peaches & Herb. Após o susto com a chuva, Mike Patton entra no palco, na estica, com uma bengala e um guarda-chuvas e entoa a canção que marca a "second coming tour". Público em extase, mas a coisa toda estava só começando, e tome-lhe "From Out Of Nowhere", e a verdadeira face de um dos mais geniais e doentios seres do planeta terra. Patton urrava, gritava, se jogava, pintou e bordou, e mostrou o porque de ser um dos maiores vocalistas e performers da música em todos os tempos. O Faith No More não economizou e vomitou uma série de hits, intercalando músicas mais pesadas com hits e/ou baladas, seguindo com "Be Agressive", "Evidence" (cantada em português, tal qual em 1995), "Surprise! You're Dead!", "Last Cup Of Sorrow", "Caralho Voador" e muitas mais.
A comunicação com o público, feita quase toda em português, rendeu, desde homenagem ao Palmeiras, até o tão falado momento "Porra Caralho". Patton, doentio, entoava as palavras, gritando, e desceu ao público, pedindo para que repetissem o "mantra", chegando ao ápice com um bitoca na boca de um encauto fã. Um dos momentos mais caóticos e subversivos do rock no Brasil. Assista isso aqui e entenda o que eu tento descrever.
Sim é tentar, não dá pra descrever o que aconteceu naquele palco e no público, foi tudo histórico, catártico, um sonho se realizando para boa parte dos presentes. Enquanto Patton urrava "Porra Caralho", eu pensava comigo mesmo, "sim, é DISSO que estou falando quando falo de rock". Rock é subversão, é atitude, é peso, magia, alegria, é também hit pop, é cantar junto e tudo isso esteve lá. "Epic", "Ashes To Ashes", "We Care A Lot", "Just A Man", "Stripsearch", "The Gentle Art Of Making Enemies" (doentia demais ao vivo!), tudo isso e mais, em 100 minutos de show, encerrados com uma versão de "This Guy is in Love With You", de Burt Bacharach, e o hit "Digging The Grave".
É complicado demais detalhar e resenhar este show, são emoções variantes, detalhes que fazem a diferença, só estando ali pra não apenas ver, mas pra sentir também.
O Faith No More voltou e devastou, deu uma aula e enfiou o dedo no cu do bom mocismo chato que assola o rock atual. Só não foram reis absolutos daquela noite, pois quem inventou essa porra toda chamada atitude rock, também estava causando, ao mesmo tempo, lá no Playcenter...
É, dia 7/11/09 foi histórico, dia de trancar seus filhos e filhas em casa. Os loucos estavam a solta.
Festival do ano, com o show do ano. Rouco e molhado de suór e chuva, sai de lá repetindo o mantra: "porra caralho".
Confira aqui alguns videos deste show:
Faith No More - Ashes To Ashes
Faith No More - Easy
Jane's Addiction - Been Caught Stealing
Deftones - Change
Confira abaixo fotos do festival pela nossa fotógrafa Aline Amaral
Wladimyr Cruz
Imagens deste show:
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